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A ocupação.

No ano de 1997, a empresa Tecnicom Máquinas e Peças Industriais LTDA. declarou falência, e, consequentemente, abandonou seu terreno no bairro Boqueirão. Localizada entre as ruas Professor José Maurício Higgins e  O Brasil para Cristo, estava o grande barracão com alguns maquinários da empresa. Com o terreno abandonado, deu-se início a uma ocupação por famílias que viram ali a oportunidade de uma moradia.

No início da ocupação do terreno, que ocorreu em 1999, “Sadi”, “Seu Luis” e mais uma pessoa não identificada, venderam os primeiros terrenos no local de maneira informal. Os primeiros moradores começaram a se estabelecer ali, e, com o passar do tempo, cada vez mais pessoas iam chegando ao local. Eledir Rodrigues, mais comumente chamada de Ledir, vai fazer 53 anos dia 9 de setembro de 2018. Ela é uma das primeiras moradoras da Sociedade Barracão. Saiu de Primavera, no interior de São Paulo, com o então marido, para um recomeço em uma nova cidade.

A ocupação não para de crescer nos anos seguintes. Em 2002, estima-se que 40 famílias já estavam ocupando o terreno. Muitos dos moradores da comunidade tinham como atividade econômica a coleta e seleção de material reciclável. Já nessa época, não havia espaço certo para nada: os barracos surgiam em qualquer espacinho disponível, e os resíduos recolhidos pelos moradores para seleção ficavam ao redor das casas, o que tornava o ambiente insalubre. Para ter acesso à energia elétrica, os moradores precisavam utilizar ligações clandestinas, o que chegou inclusive a causar um incêndio no ano de 2002.

Em 16 de setembro de 2004, a Massa Falida da Empresa Tecnicom moveu uma ação pela reintegração de posse do terreno, e a Juíza Carmen Lúcia Azevedo e Mello concedeu à massa falida o direito de reaver a propriedade, na época ocupada por 150 pessoas, dentre essas, 62 crianças.

No ano de 2006, a Terra de Direitos, organização que faz assessoria jurídica para grupos e movimentos que têm relação com a terra, e o Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo – CEFURIA, criaram uma rede de contatos de parceiros, com o objetivo de lutar pelo direito à moradia dos residentes da Sociedade Barracão. Para a garantia do terreno, a defesa apresentou uma apelação, utilizando do art. 13 do Estatuto da Cidade, que concede o direito do usucapião coletivo. As justificativas utilizadas pelos advogados da Sociedade Barracão seguem as exigências do art. 9º do Estatuto da Cidade e do art. 183 da Constituição Federal.

FOGO!

Um curto circuito, causado por uma instalação elétrica clandestina, foi a causa de um incêndio no ano de 2007. Dezesseis casas foram destruídas, durante um ano os moradores passaram a viver em barracos de lona puxadas do outro lado da rua da Sociedade Barracão.

Na época, moravam 32 famílias na comunidade. Apesar de terem acontecido outros incêndios anteriormente, esse foi relatado como o que gerou mais prejuízos para a Sociedade.

RECICLAGEM

Quando se fala em reciclagem é importante diferenciar “lixo” de “resíduo”. Lixo é tudo aquilo que não tem mais valor e que é jogado fora, inclusive, muitas vezes a palavra é usada de maneira pejorativa. Já resíduo é definido como qualquer resultado de operação industrial que ainda pode ser reutilizado.

No Brasil, a Lei 12.305/2010 é responsável por instituir a Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS. Nela estão instrumentos e orientações para tentar enfrentar os problemas ambientas, sociais e econômicos relacionados a gerência dos resíduos sólidos no país.

Foi apenas em 2002 que a Classificação Brasileira de Ocupações – CBO incluiu a atividade de catador de material reciclável. Cabe a esse profissional: catar selecionar e vender materiais recicláveis como papel, papelão e vidro, bem como materiais ferrosos e não ferrosos e outros materiais que possam ser reaproveitados.